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“Ligado ao pago, ao pingo e ao solo”: a mais antiga biografia de Alexandre Pato (1843-1913)


Eu investigava um episódio de saque ocorrido durante a Revolução Federalista (1893-1895) envolvendo o capitão Alexandre Pato, que era republicano, e um grupo de negros, federalistas, possivelmente do distrito de Pinheiro Grosso, em Vacaria, quando me deparei com aquela que deve ser a mais antiga biografia de Alexandre Antonio de Gois Vieira, conhecido em Lagoa Vermelha como “Alexandre Pato” e que dá nome ao nosso mais longevo Centro de Tradição Gaúcha.


Essa biografia aparece no jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre, em sua edição do dia 20 de janeiro de 1954. Foi escrita por Demétrio Dias de Moraes, que em 1952 havia publicado o seu primeiro livro denominado “Momentos Históricos de Lagoa Vermelha (Espisódio da Revolução Federalista de 1893)”. É um texto histórico muito importante para Lagoa Vermelha e que o projeto Lagoa Histórica resgata e disponibiliza aos leitores e apaixonados pela nossa terra.


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Biografia de Alexandre Pato


Demétrio Dias de Moraes (Diário de Notícias, 20-01-1954)


Alexandre Antonio de Gois Vieira nasceu na Fazenda da Ramada, no município de Vacaria, em 28 de março de 1843. Seu pai Bernardino Antonio de Jesus, era natural deste Estado, das imediações da Lagoa dos Patos, e a mãe, Bernardina de Gois Vieira, natural do Estado de S. Paulo.


Contraiu matrimônio com a sra. Francisca Borges Vieira, de tradicional família de Vacaria, de cuja união nasceram 16 filhos, vivendo e residindo neste Município sua maioria. São eles: Etelvina e Henrique de Gois Vieira, Vitor Antonio Vieira, Malvina Borges, Virgulina e Avelino de Gois Vieira, Joaquim Vieira Pato, Maria Eliza, Leandro e Otavio de Gois Vieira, Francisca Borges, Anália, Maria Gertrudes e Inácia de Gois Vieira, José Bernardino Vieira.


Iniciou a sua vida de casado, com um pequeno estabelecimento comercial em Passo da Telha no município de Vacaria, tendo mais tarde vendido o negócio e o campo que receberam como herança do pai, passando a sua atividade para criador em campo arrendado na Fazenda São João. Posteriormente, transferiu-se para a fazenda da Estrela, onde ainda em campo arrendado desenvolveu a sua atividade como criador e agricultor. Em 1897, adquiriu a Fazenda do Posto neste município, onde veio a falecer a 19 de março de 1913.

Ex-deputado estadual Francisco Appio, em 2009, resgatou a história de Alexandre Pato.

Alexandre Pato foi gaúcho autêntico, campeiro, folgazão, hospitaleiro, exímio trançador de laços. Na sua fazenda era gaúcho leal e amigo de todos, a sua porta sempre esteve aberta a quem a batesse. Possuía notável cortesia e cavalheirismo, atendia com alegria e hospitalidade. Foi um grande afeiçoado à caça, apreciava, sobretudo, uma mesa de solo e primeira entre amigos. Muita alegria e conforto no lar, era todo dedicado. Possuía uma tradicional viola de campeiro, na qual fazia os seus momentos de música regional.


Alexandre de Gois Vieira foi conhecido pelo codinome de Alexandre Pato, apelido este que veio de seu pai Bernardino Antonio de Jesus (Bernardino Pato) por ser ele natural das margens da grande lagoa deste nome.


Alexandre Pato foi o tipo característico do gaúcho nobre, altaneiro e dominador dos pampas. Cavaleiro, campeiraço e nos reboliços das campereadas e das azáfamas das mangueiras, ninguém lhe levava a palma. Seu lema foi o dever e o amor a uma grande família unida e moldada nos ensinamentos da virtude e cavalheirismo sem igual.


Estreitamente ligado ao pago, ao pingo e ao solo, transmitiu à ilustre e enorme prole, todas as tradições deste grande povo do Rio Grande, que foi esculturado à margem da rigeza para viver e vencer nas agruras das campanhas infinitas, fustigados pelas intempéries das inverias regeladas pelo minuano ingrato, ou calcinados pelos raios do “astro rei”, nos dias em que a cigarra canta, e junto à superfície da terra nua, parece tremer o ar como aquecido por um braseiro.


Desse tronco prolífero nasceram 101 netos perto de 100 bisnetos, em cujo sangue circulam as legítimas tradições dos autênticos gaúchos que conquistaram aos espanhóis este torrão querido, à ponta de lança e nas cargas das cavalarias invencíveis.


Esta é a biografia de Alexandre Pato, patrono do Centro de Tradições de Lagoa Vermelha.


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Referência:

Diário de Notícias, 20 de janeiro de 1954. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093726_03&Pesq=%22Lagoa%20Vermelha%22&pagfis=241


A imagem do retrato de Alexandre Pato e as fotografias da Fazenda da Ramada e do Posto foram retiradas da publicação de 2009 que o ex-deputado estadual Francisco Appio confeccionou. Disponível em: https://livrozilla.com/doc/392243/clique-aqui-e-acesse




Como citar esse artigo:


DAMIN, Cláudio Junior. “Ligado ao pago, ao pingo e ao solo”: a mais antiga biografia de Alexandre Pato (1843-1913). Projeto Lagoa Vermelha Histórica, 12-10-2021. Disponível em: https://www.lagoahistorica.com.br/post/ligado-ao-pago-ao-pingo-e-ao-solo-a-mais-antiga-biografia-de-alexandre-pato-1843-1913
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